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domingo, 10 de julho de 2011

Por qué luchamos - Por que lutamos


Por qué luchamos - Por que lutamos

O complexo militar-industrial americano se tornou tão poderoso desde a Segunda Guerra que, atualmente, é capaz de forçar a declaração de conflitos para expandir seu poder e consolidar o império americano na cena internacional, sem se preocupar com as conseqüências dessas políticas.

A análise é de Eugene Jarecki, diretor do excelente documentário "Por Que Lutamos" (EUA, 98 minutos, 2005), que será exibido hoje para convidados na abertura do É Tudo Verdade - 10º Festival Internacional de Documentários, e de, entre outros, "O Processo de Henry Kissinger (2002). "Por Que Lutamos" também poderá ser visto pelo público do festival na sexta-feira, às 21h, no Cinesesc.

Leia a seguir trechos de sua entrevista, por telefone, à Folha.

Folha - Documentários estão ficando mais populares, deixando os círculos restritos dos festivais. Como o sr. vê essa tendência?

Eugene Jarecki - Vivemos num momento em que o centro do poder, sobretudo nos EUA, faz uso da ficção. Mas o público sabe instintivamente que há algo errado com isso, como no caso da Guerra do Iraque ou no da tentativa de impor a democracia a outros países. Quando a grande potência lhe dá algo que é contrário a seus instintos, você passa a procurar a verdade. Assim, é normal que as pessoas que buscam a verdade tenham seu trabalho apreciado. Por isso os documentários estão se tornando mais importantes.

Folha - Isso explica a relativa crise do cinema ficcional?

Jarecki - Há dois fenômenos concomitantes. Os documentários respondem a duas tendências mundiais. A primeira é a crise do jornalismo tradicional. Afinal, a mídia é impotente em relação aos poderosos ou joga o jogo deles. Com isso, os documentários se tornaram uma alternativa ao fracasso jornalístico. A segunda tendência é a falta de imaginação da indústria cinematográfica. Como resultado, os documentários encontraram um filão que agrada ao público que busca a verdade.

Folha - E quanto à distribuição dos documentários, que atrai cada vez mais TVs a cabo. Isso é um estímulo ou uma limitação?

Jarecki - Há muitos documentários na TV porque eles são mais baratos, e as TVs não estão muito preocupadas com o que colocam no ar entre dois comerciais de creme dental. Os documentários também estão atraindo mais público nas salas de cinema, mas isso não ocorria no passado.

Quando fiz meu último filme antes desse, "O Processo de Henry Kissinger", ele foi exibido em cerca de 120 cidades americanas, porém isso foi uma surpresa porque documentários não costumavam receber esse tipo de distribuição. Agora, com "Sob a Névoa da Guerra" [de Errol Morris], com o filme de meu irmão "Na Captura dos Friedmans" e com "Fahrenheit 11 de Setembro" [de Michael Moore], os documentários estão se popularizando.

O fato de a indústria cinematográfica se envolver ou não na distribuição desses filmes não é o mais importante, já que os documentários chegarão ao público de outra forma, como a internet. Afinal, o público quer a verdade.

Folha - O que o sr. pensa do trabalho de Michael Moore?

Jarecki - Sou um grande fã dele. Muita gente diz que meu filme é bem diferente de qualquer trabalho de Michael Moore, pois é menos panfletário etc. Talvez isso seja verdade, mas ele deve continuar fazendo o que faz. O mesmo vale para mim ou para qualquer outro cineasta. Quando há uma crise da mídia, como hoje nos EUA, não podemos dizer gosto disso ou não gosto daquilo. Todas as vozes são bem-vindas.

Folha - Falando especificamente do novo filme, como os EUA chegaram ao ponto em que a indústria bélica está por trás das guerras?

Jarecki - Isso é simples. No final da Segunda Guerra, os EUA perceberam que eram o maior poder do mundo ocidental e tinham a chance de construir um império, como os que o Reino Unido e Roma tiveram. Com isso, os americanos começaram a construir um império global, o que ficou mais fácil após o final da Guerra Fria.

Mas, durante os 50 anos dessa guerra, foi necessário criar uma indústria bélica permanente. Essa perspectiva já causava preocupação nos presidentes George Washington [1789-97], Abraham Lincoln [1861-65] e Dwight Eisenhower [1953-61]. Afinal, quando está sempre preparado para a guerra, um país tem um establishment militar muito forte, que influencia as decisões do governo. Mas, para ter um império, é preciso aceitar a existência dessa indústria.

Folha - Qual é o perigo disso?

Jarecki - Trata-se de um perigo muito grande, pois é uma mistura do desejo imperial americano com os interesses corporativos de uma classe consolidada. Trata-se do maior perigo para a democracia porque, embora haja outras importantes forças antidemocráticas mundiais, elas não têm nenhum poder se comparadas com a indústria bélica dos EUA.

Folha - No filme, o ex-assessor do Pentágono Richard Perle diz que esse quadro não vai mudar mesmo que haja outros governantes nos EUA simplesmente porque o mundo mudou após o 11 de Setembro. Como o sr. vê a afirmação?

Jarecki - Trata-se de um pensamento muito assustador, mas que corresponde à realidade. O governo de George W. Bush ficou mais forte pela própria habilidade de dizer que suas ações foram bem-sucedidas, embora o mundo todo saiba que isso não é verdade.

Como todos sabem que o Iraque é um grande fracasso, o governo Bush teve de exagerar seu sucesso para convencer o público americano. Assim, houve enormes gastos com propaganda. Esta lembra muito a do tempo da Guerra do Vietnã quando centenas de milhares de americanos morriam, mas ninguém ficava sabendo. A mídia atual enfrenta o mesmo problema.


Com isso, os políticos crêem poder espalhar as guerras para outras frentes, e Perle sabe que é importante insistir na mesma tecla. O que conta para os dirigentes é expandir o império dos EUA, não as conseqüências dessa política, como os traumas psicológicos infligidos nas crianças iraquianas ou a fragilidade da democracia.

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