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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O que é Xadrez às Cegas (ou mental)?


O que é ‘Xadrez às cegas’?

No ‘Moderno Dicionário de Xadrez’, do Dr. Byrne J. Horton _ Ph.D. em Filosofia e consagrado enxadrista norte-americano, podemos encontrar a seguinte definição:

“Xadrez Mental ou Xadrez às Cegas – é a arte de jogar Xadrez sem utilizar tabuleiro ou peças. A partida é conduzida sem qualquer espécie de auxílio que possa manter presente a posição das peças. Para garantia da exatidão e referência, registram-se os lances. Este modo de jogar requer uma memória infalível da posição exata de cada peça durante toda a partida, requer excepcionais poderes de concentração e vívida imaginação das alterações que se processam no decorrer do jogo.”

Obs.: a descrição do Dr. Horton é para uma partida individual às cegas. No caso de uma simultânea às cegas, não se joga uma única partida; são muitas partidas de uma só vez, por isso é necessário memorizar e administrar corretamente uma quantidade muito maior de informações. Além disso, os lances ‘NÃO SÃO REGISTRADOS’ em papel ou similar, conforme Dr. Horton sugere. Em vez disso, os lances ficam registrados unicamente na memória. Trata-se, portanto, de uma performance muito difícil, e essa dificuldade se nota tanto pela descrição como pela raridade de eventos como esse.

O que diz a Ciência sobre o jogo às cegas?

O psicólogo francês Alfred Binet tornou-se mundialmente famoso por ter criado os testes de inteligência que posteriormente deram origem aos testes de QI. Em fevereiro de 1891, depois de assistir a uma exibição de simultâneas às cegas, realizada em Paris _ mais precisamente no Café de La Régénce, Binet ficou tão impressionado que decidiu realizar um estudo minucioso a esse respeito.

Depois de cerca de dois anos e meio de trabalho, em junho de 1893, Binet publicou um artigo em que resumia suas impressões sobre o jogo às cegas. Ao longo desses 28 meses, Binet entrevistou dezenas de grandes jogadores, como o aspirante ao título mundial Siegbert Tarrasch e o ex-recordista mundial de simultâneas às cegas Joseph Henry Blackburne. Muitos desses enxadristas chegaram a prestar extensos depoimentos no laboratório de Sorbone, em que descreveram pormenorizadamente o processo de visualização, de memorização, de cálculo etc. Isso permitiu a Binet reunir um vasto material sobre o assunto, a partir do qual pode compreender muitos aspectos sobre a mente do jogador às cegas em particular e a mente humana de modo geral.

Entre outras coisas, Binet constatou que praticamente todo jogador de primeira categoria consegue jogar uma ou mais partidas às cegas (a exceção mais curiosa parece ser o caso do ex-campeão mundial Dr. Max Euwe, que se dizia incapaz de jogar uma partida às cegas).

Verificou-se também que a força de jogo não é necessariamente proporcional à capacidade de jogar um grande número de partidas às cegas. Por outro lado, em se tratando da força de jogo tático e combinativo, a correlação parece ser muito boa: quanto maior o número de partidas às cegas que um jogador é capaz de conduzir simultaneamente, tanto maior é sua força no jogo de combinação.

Binet, Taine e outros pesquisadores do assunto, chegaram à conclusão de que para jogar às cegas sobretudo para jogar um número elevado de simultâneas às cegas, era imprescindível possuir uma excelente memória, muita imaginação, um profundo conhecimento de Xadrez, boa concentração e uma prodigiosa capacidade de abstração. Além disso, o vigor físico e diversas outras faculdades mentais são de grande importância. Sobre o vigor físico, se faz notar sua necessidade principalmente nas simultâneas às cegas de grandes proporções contra 6 ou mais oponentes, em que o simultanista permanece 5, 6 ou até 20 horas seguidas numa posição quase fixa, muitas vezes com a musculatura tensa.

Em seu artigo, Binet expressa muito bem que durante uma simultânea às cegas não basta memorizar todos os lances de todas as partidas, o que não exigiria muito mais do que memorizar um número com 800 ou 1000 algarismos. Para jogar uma simultânea às cegas é necessário memorizar cada um dos diagramas que se sucedem no decorrer das partidas, pois a avaliação e o cálculo não são possíveis tomando-se por base unicamente a notação dos lances; é preciso “enxergar” os diagramas, com o tabuleiro e todas as peças (não necessariamente num quadriculado, mas é preciso saber todos os pormenores sobre como as peças estão interagindo). Isso corresponderia a memorizar um número com 10.000 ou 15.000 algarismos.

É importante ter em mente que essa estimativa está considerando apenas os lances efetivamente executados, sem levar em conta as variantes e sub-variantes que afloram e desaparecem na mente do simultanista durante as partidas, muitas das quais permanecem na memória até algumas semanas depois de concluída a exibição, mas não aparecem concretamente e por isso quase poderiam deixar de serem computadas nesse cálculo. Sob esse ponto de vista, pode-se dizer que jogar uma simultânea às cegas contra 8 ou 10 oponentes equivale a memorizar um número com cerca de 1.000.000 ou 2.000.000 algarismos.

Mas essa não é uma comparação fiel, já que os números aleatórios são mais difíceis de serem retidos na memória do que os lances e diagramas de Xadrez. Uma analogia mais próxima seria o equivalente a aprender idiomas. Uma simultânea às cegas como a de Najdorf, jogada em 1947, foi equivalente a aprender três idiomas inteiros e fluentes em um só dia! Isso proporciona uma idéia mais próxima do real grau de dificuldade, pois aprender idiomas, do mesmo modo que jogar às cegas, é mais fácil que memorizar números aleatórios. Convém esclarecer que jogar às cegas e aprender idiomas envolvem habilidades distintas, portanto se uma pessoa aprende um idioma em um dia, não significa que será capaz de jogar 15 simultâneas às cegas, do mesmo modo que uma pessoa que joga 15 simultâneas às cegas não será necessariamente capaz de aprender um idioma em um dia.

Aprender três idiomas num dia ou jogar 45 simultâneas às cegas é mais fácil que memorizar 12.000.000 de algarismos aleatórios, mesmo assim, é indiscutível que essas três realizações constituem proezas extraordinárias e situam-se no limiar da capacidade humana. Prova disso é que já se considera extraordinário jogar uma partida às cegas, aprender um idioma fluente em um mês ou memorizar um número de 1.000 algarismos aleatórios, e apenas três pessoas na história da humanidade (Miguel Najdorf, George Koltanowski e Janos Flesh) foram capazes de jogar 45 ou mais simultâneas às cegas, somente uma pessoa teve a capacidade de aprender um idioma em um dia (William James Sidis) e somente uma pessoa foi capaz de memorizar mais de 40.000 algarismos aleatórios (Hiroyuki Goto).

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