Páginas

Pesquisar no Blog

domingo, 29 de agosto de 2010

Mindwalk - (O ponto de mutação)

AVISO: Ao clicar em cc você tem a opção de traduzir as legendas de inglês para português

“Mindwalk”, de Bernst Capra, é baseado no livro “The mutation point”, de Fritof Capra, por isso o título do filme em português: “O ponto de mutação”.

Sinópse:

A principal protagonista é uma cientista norte-americana especialista em Física (laser de alta precisão) que, em crise existencial depois de descobrir a intenção do uso militar de sua pesquisa, retira-se com a filha adolescente para a França, fixando-se próximo a um antigo castelo visitado por turistas. Embora possa ser alcançado a pé durante a maré baixa, o castelo é peculiar por ser cercado diariamente pela maré alta, que se alastra naquela região por vários quilômetros. A cientista visita o castelo diariamente para refletir e rever seu papel frente a ciência e a sociedade, mas esta introspecção parece que a distancia da filha, que não compreende direito a atitude da mãe. Aqui já se apresentam dois pontos interessantes para se observar:

Sem considerar o descompasso de idéias entre pais e filhos, a metáfora da relação entre mãe e filha representa a dificuldade de aceitar o pensamento diferente. Esta idéia coaduna com a crise de percepção (ou “percepção fechada”) da ciência moderna e a relutância em evoluir para uma visão mais sistêmica.

Ainda, cai por terra a noção ingênua de que a ciência seria imparcial e teria um fim em si mesma. Embora muitos cientistas se escondam por detrás da falácia da “ciência pela ciência”, nestes tempos modernos, mais do que nunca, “conhecimento é poder”.

Em um de seus passeios diários pelo castelo a cientista encontra um senador norte-americano, candidato derrotado nas últimas eleições para a presidência dos EUA, que fora levado ao castelo por seu amigo poeta. Este último vive na França como professor de literatura. Embora tenham se encontrado antes em outros cômodos do castelo, sua longa conversa a três inicia-se providencialmente na sala do grande relógio.

A principal metáfora da física newtoniana é o relógio mecânico. Isaac Newton acreditava que o Universo (toda a natureza orgânica e inorgânica) era simples e estável como um grande relógio, equilibrado e movido por uma força externa (divina), restando ao homem a descoberta de suas leis matemáticas, por exemplo, a “lei da queda dos corpos” (gravidade). Newton acreditava ainda que o mundo micro-físico (invisível) era feito de átomos sólidos (partículas indivisíveis) que respeitavam as mesmas leis matemáticas do mundo macro-físico (visível).

Mais tarde Laplace diria que se conhecendo estas leis fundamentais e o estado inicial de um corpo ou partícula poder-se-ia predizer exatamente o seu estado ou posição a qualquer momento posterior.

Entretanto o tema principal da discussão inicial (e talvez do filme todo) entre os três protagonistas é a figura de Renné Descartes, filósofo, físico e médico (o que no século XVII era “mais ou menos a mesma coisa”) que fundou o pensamento da ciência moderna com seu “DISCURSO DO MÉTODO. Para conduzir bem sua razão e procurar a verdade nas ciências”. Buscando provar a existência de Deus, Descartes propôs um método científico baseado na separação dualista entre mente (espírito, alma, anima) e corpo, daí sua primeira e célebre premissa: “cogito, ergo sum” (penso, logo existo). Ao reconhecer que podia se dar conta de seu “pensar enquanto coisa não extensa e seu existir enquanto coisa extensa”, mesmo sendo “imperfeito”, Descartes deduziu que deveria haver um ser perfeito (Deus) que permitisse a ele poder pensar, existir e dar-se conta disso. Para o foco do filme, importantes no pensamento paradigmático cartesiano são os conceitos de ordem, equilíbrio, linearidade, causa e efeito, certeza, previsibilidade.

O político da trama tem uma visão cartesiana e bastante estreita do mundo, o que, obviamente, ele mesmo não sabe e não aceita. Isso transparece quando a cientista tenta, inicialmente em vão, mostrar a ele a influência do pensamento (método) cartesiano no mundo ocidental nos últimos 350 anos (na ciência, indústria, tecnologia e inclusive na escola).

A conversa entre a cientista, o político e o poeta dura o dia todo, passando por vários ambientes do castelo e até mesmo pela casa da cientista e a praia em que fica localizada, próxima do castelo. Durante esta longa conversa os três se envolvem e a cientista, por vezes ajudada pelo poeta que tem um pensamento menos linear, tenta abrir os olhos do político para uma visão mais sistêmica. Algumas idéias que aparecem explícita ou implicitamente nesses diálogos:

O surgimento, na 1ª metade do século XX, de uma corrente de cientistas que começaram a olhar para processos ao invés de estruturas, para sistemas de relações ao invés de partículas isoladas.

Passa-se a ver os sistemas como abertos, capazes de trocar energia e matéria, ao invés da visão newtoniana do universo como um sistema fechado e isolado.

A (eco)teoria do sistemas vivos como “redes de vida”, redes de relações capazes de produzir os elementos que produzem elas próprias e o sistema enquanto unidade não isolada.

O conceito de vida como self-organization (“auto-organização”), em que um ser (sistema) vivo depende do meio ambiente (através de uma rede interdependências), mas não é determinado por ele. Sendo um sistema vivo algo criativo, não apenas adaptado, portanto capaz de transcender a outros estados de maneira cíclica não fechada, ou seja, capaz de evoluir.

O universo está evoluindo a partir do Bigbang e tenderia ao caos (entropia máxima). As formas auto-organizadas surgem dessa “sopa caótica”, como “ilhas de ordem” em meio a um “mar de desordem”. Ordem e desordem (do caos), aberto e fechado (nos sistemas), passam a ser conceitos complementares, facetas interdependentes do mesmo processo evolutivo. Devido a evolução, uma pequena alteração no estado inicial de um sistema pode, a longo prazo, levar a mudanças profundas no estado “final” observado.

Grande parte dessas novas idéias advém da descoberta que o mundo micro-físico não atende as leis do mundo macro-físico.
  • Não se pode predizer, a não em níveis de probabilidade (incerteza) a posição dos elétrons de um átomo num intervalo entre duas observações, pois o fato de se observar (ou a presença ou vontade do observador) interfere no processo. Em última instância, os elétrons apresentam-se como partícula e como onda (teoria dos quanta).
  • Ao contrário do que pensava Newton, os átomos não são sólidos, pois são constituídos em sua maior parte de espaços vazios.
  • Existem correlações entre eventos ocorrendo mesmo quando distantes um do outro no tempo e no espaço.
 As cenas finais dos três protagonistas apresentam:

O político convida a cientista para fazer parte da sua equipe, pois ele pretende se recandidatar e encontra-se encantado com as possibilidades da visão que ela lhe ofereceu. Ela não aceita alegando que precisa no momento refletir mais sobre sua vida.

Embora tenha aparentemente evoluído um pouco em seu pensamento ao absorver um pouco das idéias novas, o político ainda aparece ao final como desejoso de uma espécie de “pacote de solução”, como é típico do perfil pragmático de boa parte da classe política.

O poeta declama um poema de Pablo Neruda que versa de maneira um tanto surrealista a máxima de que “quanto mais buscamos explicações [por exemplo, científicas] acabamos por encontrar a nós mesmos”.

Fazemos parte da explicação, sujeito descritor e objeto descrito são sistemas não isolados tampouco fechados, que fazem parte de um mesmo sistema e trocam energia e matéria entre si.

A cientista aparece, de certa forma, reconciliando-se com a filha.

Metaforicamente isso direciona para uma perspectiva otimista de que se possa transpor, num futuro breve, o paradigma cartesiano, passando a humanidade a um estado de maior integração (“ecological thinking”) que só pode ser alcançado através de uma nova percepção da ciência, de um pensar complexo que permita abarcar o caráter sistêmico e evolutivo do universo.

(Fonte: UFRGS)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Total de visualizações de página